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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Memórias de um buscador

Só o ponto de vista da personalidade te limita e confina, fazendo-o considerar o que foi vivido como um objetivo e como um objeto. 

Enquanto tu definires como um objetivo e um objeto separado (em relação a uma experiência, seja ela a mais importante), tu não estarás no Instante Presente e não és o que tu És. Tu deixaste o momento ser tomado pela personalidade. A partir do instante em que uma experiência aparece na consciência (qualquer que seja essa consciência), esta vai se aproveitar.

Enquanto existir, na consciência, o sentimento de uma memória, de uma experiência (mesmo a mais extraordinária que seja), tu vives no passado. Porque há um condicionamento que vem das suas próprias experiências e que vem alterar, realmente, a possibilidade de Ser o que tu És. Nenhuma experiência se resume a um passado ou a um futuro.

sábado, 7 de abril de 2012

O que pode existir se não o seu ser real?

P: Como posso apenas Ser? O que é apenas Ser? As mudanças ocorrem o tempo todo, elas são inevitáveis.
M: As mudanças são inevitáveis no mutável, mas você não está ou pelo menos não deveria estar sujeito a elas. Você é o fundo imutável contra o qual as mudanças são perecebidas.


P: Tudo muda, o fundo também muda. Não há necessidade de um fundo imutável para notar as mudanças. O ser é momentâneo sendo meramente o ponto onde o passado encontra o futuro.
M: É certo que o ser baseado na memória é momentâneo. Mas tal ser exige uma continuidade uniforme, que é mais permanente por trás dele próprio. Você conhece pela experiência que há intervalos em que o ser é esquecido. O que o traz de volta a vida cotidiana? O que o acorda de manhã? Deve existir um fator constante que possa unir esse intervalos na consciência, que o mantém vivo constantemente. Se você observar cuidadosamente, você achará que mesmo em sua consciência diária existem lampejos, com intervalos interpondo-se todo o tempo. O que há nos intervalos? O que pode existir se não o seu ser real, o qual é eterno? A mente e o vazio são um para ele.

[Nisargadatta Maharaj]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A verdadeira felicidade só é possível quando a mente está estável

 Estados de felicidade plena podem ser alcançados, desde que não haja identificação e/ou envolvimento da mente nesses estados. 

Durante satsangs realizados na India, Nisargadatta Maharaj (M) responde dúvidas, conforme elas surgem apontadas por um Questionador (Q) curioso e interessado.

Q: Quando criança, eu freqüentemente experimentava estados de completa felicidade, chegando ao êxtase. Mais tarde, eles cessaram. Mas desde que vim para a Índia eles reapareceram, principalmente depois que o encontrei. Ainda assim, esses estados, embora maravilhosos, não são duradouros. Eles vão e vêm sem que eu saiba quando voltarão. 

M: Como alguma coisa pode permanecer estável em uma mente, quando ela mesma não é estável? 

Q: Então como posso tornar minha mente estável? 

M: Como pode uma mente instável tornar-se a si mesma estável? É claro que não pode. É da natureza da mente ficar vagando. Tudo que se pode fazer é deslocar o foco da consciência para além da mente. 

Q: Como se faz isso? 

M: Recuse todos os pensamentos, exceto um: o pensamento "Eu Sou". A mente se rebelará no início, mas com paciência e perseverança, ela irá render-se e ficar quieta. Uma vez a mente quieta, as coisas começarão a acontecer espontânea e naturalmente, sem nenhuma interferência da sua parte. 

Q: Posso evitar esta batalha com minha mente? 

M: Sim, você pode. Apenas viva sua vida da maneira como ela se apresenta, mas fique alerta, vigilante, permitindo que cada coisa aconteça da maneira que acontecer, fazendo as coisas naturais de um jeito natural, sofrendo, regozijando-se, da forma como as coisas vierem. Esta também é uma maneira. 

Q: Bem, então eu posso também me casar, ter filhos, tocar um negócio... ser feliz.

M: Certamente. Você pode ser feliz ou não, a escolha é sua. 

Q: Bem, eu quero a felicidade. 

M: A verdadeira felicidade não pode ser encontrada em coisas que mudam e se vão. Prazer e dor se alternam inexoravelmente. A felicidade vem do self e pode ser encontrada somente nele. Encontre o seu Ser real (swarupa) e tudo mais virá com ele. 

Q: Se o meu verdadeiro self é paz e amor, por que ele é tão inquieto, tão agitado? 

M: Não é seu ser real que é agitado, mas seu reflexo na mente é que parece agitado, pois a mente é agitada. É como o reflexo da lua na água movimentada pelo vento. O vento do desejo agita a mente e o "eu", que nada mais é do que o reflexo do Self na mente, parece mutável. Mas essas ideias de movimento, inquietação, prazer e dor estão todas relacionadas na mente. O Self está além da mente, consciente, e sem qualquer envolvimento. 

Q: Como alcançá-lo? 

M: Você é o Self, aqui e agora. Deixe a mente em paz, fique consciente, não se envolva, não se identifique com as situações da vida e você irá perceber que permanecer alerta mas desprendido, assistindo os acontecimentos indo e vindo, é um aspecto da sua natureza real (adaptado).

(Sri Nisargadatta Maharaj - I Am That)

sábado, 8 de janeiro de 2011

É seu desejo de apegar-se a algo que cria o problema

  Então, questionaram Nisargadatta Maharaj:

P: Qual é o seu estado no momento presente?
NM: Um estado de não-experimentação. E nesse estado, toda experiência está incluída.

P: Você pode entrar na mente e no coração de outro ser e compartilhar sua experiência?
NM: Não. Tais coisas requerem treinamento especial. Sou como um comerciante de trigo. Sei pouco sobre pães e bolos. Posso mesmo não conhecer o gosto de uma papa de trigo. Mas sobre o grão de trigo sei tudo e o sei bem. Eu conheço a fonte de toda experiência. Mas as inumeráveis formas particulares que a experiência pode tomar eu não conheço. Nem tenho necessidade de conhecer. De momento a momento, o pouco que necessito saber para viver minha vida, de algum modo, acontece que o sei.

P: Sua particular existência e minha existência particular, existem ambas na mente de Brahma?
NM: O universal não é consciente do particular. A existência como uma pessoa é um assunto pessoal. Uma pessoa existe no tempo e no espaço, tem nome e forma, início e fim. O universal inclui todas as pessoas e o absoluto é a raiz de tudo e está além de tudo.

P: Não estou interessado na totalidade. Minha consciência pessoal e sua consciência pessoal, qual o elo entre as duas?
NM: Qual pode ser o elo entre dois sonhadores?

P: Podem sonhar um com o outro.
NM: Isto é o que as pessoas estão fazendo. Todos imaginam os "outros" e buscam ligação com eles. O buscador é o elo, não há nenhum outro.

P: Seguramente deve haver algo em comum entre os muitos pontos de consciência que nós somos.
NM: Onde estão os muitos pontos? Em sua própria mente. Você insiste que o mundo é independente de sua mente. Como pode sê-lo? Seu desejo de conhecer a mente de outras pessoas deve-se ao desconhecimento de sua própria mente. Em primeiro lugar conheça sua própria mente e descobrirá que a questão de outras mentes não surgirá de forma alguma porque não existem outras pessoas. Você é o fator comum, a única ligação entre as mentes. Ser é consciência; "eu-sou" aplica-se a todos.

(...)

P: Se meu mundo é meramente um sonho e você é uma parte dele, o que você pode fazer por mim? Se o sonho não é real, se não tem ser nenhum, como pode a realidade afetá-lo?
NM: Enquanto dura, o sonho tem um ser temporário. É seu desejo de apegar-se a ele que cria o problema. Deixe-o ir. Pare de imaginar que o sonho é seu.

(...)

P: Há sentimentos no sonho que parecem reais e duradouros. Desaparecem no despertar?
NM: No sonho, você ama uns e não ama outros. Ao acordar o, você descobre que é o próprio amor que a tudo abraça. (...) amar em liberdade é amar a tudo e a todos.

P: As pessoas vêm e vão. Ama-se quem se encontra, não se pode amar a todos.
NM: Quando você é o próprio amor, você está além do tempo e dos números. Amando um você ama a todos, ama cada um. Um e todos não são incompatíveis.

("Eu Sou Aquilo" - 'Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj' )

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Permaneça como uma testemunha no palco da vida

 Enquanto houver identificação, haverá sofrimento, assim como poderá haver prazer. Buscamos incessantemente por este último, mas negamos e queremos evitar à qualquer custo aquele. A dualidade na vida é inevitável, enquanto estamos presos nos seus limites. 

Nos basta compreender e aceitar tudo, a partir da mudança de nossas próprias atitutes diante desses extremos, que se tocam numa "linha fina".


Não há muito o que fazer, exceto manter-se "distante" no mais Puro estado de auto-observação, testemunhando, além de ter a clareza e o discernimento de que tudo está na mais perfeita ordem. Assim, Nisargadatta Maharaj descreve:


"Você não pode fazer nada.  O que o tempo traz, o tempo levará embora. Este é o fim da Yoga, realizar total independência. Tudo o que acontece, acontece na, e para a mente, não para a fonte do “Eu sou”. 

Uma vez que você realize que tudo acontece por si mesmo (chame a isso 'destino' ou 'Vontade de Deus', ou mero acidente), você permanece como testemunha somente, compreendendo e apreciando, mas nunca perturbado. Você é responsável somente pelo que você pode mudar. Tudo que você pode mudar é sua atitude. Aí mora a sua responsabilidade".

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Veja a si mesmo na quietude da mente


Trata-se de um dos livros mais profundos que tenho lido e que constantemente me deixa "confuso", a ponto de ir profundo no auto-questionamento. Nisargadatta Maharaj diz coisas que vão além de qualquer sentido relativo. Em Eu Sou Aquilo, quando fala sobre a "Consciência é Livre" (pág. 210), questionaram-o sobre a existência da Consciência:

P: Todos estão conscientes, mas nem todos estão acordados para a Consciência.
M: Não diga: "todos estão conscientes". Diga: "há consciência" na qual tudo aparece e desaparece. Nossas mentes são apenas ondas no oceano da consciência. Como ondas, vão e vêm. Como oceano, são infinitas e eternas. Conheça a si mesmo como o oceano do ser, o útero de toda existência. Certamente, tudo isto são metáforas; a realidade está além da descrição. Só sendo a realidade se pode conhecê-la.

P: Vale a pena buscá-la?
M: Sem ela tudo é problema. Se quer viver de maneira sã, criativa e feliz, tendo infinitas riquezas a compartilhar, busque o que você é. Enquanto a mente estiver centrada no corpo e a consciência na mente, a Consciência é Livre. O corpo tem seus impulsos e a mente, suas dores e prazeres. A Consciência é desapegada e inabalável. É lúcida, silenciosa, pacífica, viva, sem desejo, nem temor. Medite nela como em seu próprio ser e tente sê-la em sua vida diária e você compreenderá em toda sua plenitude.

A mente está interessada no que acontece, enquanto a Consciência se interessa na própria mente. A criança vai atrás do brinquedo, mas a mãe observa a criança, não o brinquedo. Observando incessantemente, esvaziei-me por completo e, com esse vazio, tudo regressou a mim, exceto a mente. Descobri que havia perdindo a mente irreparavelmente.

P: Você está inconsciente enquanto está falando?
M: Não estou nem consciente nem inconsciente, estou além da mente e de seus vários estados e condições. As distinções são criadas pela mente e se aplicam apenas para a mente. Sou a mais pura consciência, ela própria, a Consciência íntegra de tudo o que É. (...) As distinções e separações que constituem uma pessoa, não me distraem. Enquanto o corpo durar, ele terá suas necessidades como qualquer outro, mas o processo mental terminou.
P: Você se comporta como uma pessoa que pensa?
M: Por que não? Mas meu pensamento, como minha digestão, é inconsciente e propositado.

P: Se seu pensamento é inconsciente, como você sabe que ele está correto?
M: Não há nenhum desejo, nem temor que o impeça. Dessa forma, o que pode torná-lo incorreto? Uma vez que me conheço e o que represento, não necessito verificar-me todo o tempo. Quando você sabe que seu relógio marca a hora correta, você não precisa duvidar dele toda vez que o consulta.

(...)

P: Permita-me perguntar como você chegou a sua presente condição?
M: Meu mestre falou-me para agarrar-me tenazmente ao sentido "eu sou" e não desviar dele nem por um momento. Simplesmente, segui seu conselho e, em um tempo comparativamente curto, compreendi, dentro de mim mesmo a verdade de seu ensinamento. Tudo o que fiz foi lembrar constantemente seu ensinamento, seu rosto, suas palavras. Isto acabou com a mente e, na quietude da mente, vi a mim mesmo como sou ilimitado.

jaya om bhagavan!!!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nada pode perturbar o meu Ser

O que demanda toda minha energia, levando-me a ter experiências de sofrimento e prazer, são os constantes pensamentos que surgem e desaparecem em minha mente, afetando assim meu estado emocional, espiritual e, às vezes, podendo somatizar ambos no corpo físico. Assim, prazer e sofrimento, refletem apego e aversão. Devido aos condicionamentos passados, há uma tendência em querer experimentar sempre a mesma sensação de prazer (apego), assim como quero evitar quaisquer experiências desagradáveis (aversão).

É muito comum isso. Enquanto preso no mundo da dualidade, vida e morte estarão sempre presentes, lado a lado, e o discernimento daquilo que É, aceitando a realidade tal como ela está sendo concebida, se perde por completo: como uma nuvem de fumaça, que distorce a visão e prejudica a respiração.

No entanto, no fundo, bem lá no fundo, profundo em meu coração, nada absolutamente pode perturbar a minha paz, pois não existem diferenças entre o bem e o mal, entre a natureza da destruição e da criação, entre um pensamento e outro. Assim, nada me toca, exceto a minha própria Paz e o meu próprio mundo, recheado de Sat-cit-ānanda.

Om.

domingo, 7 de março de 2010

Desejo e medo vêm da visão de mundo como algo separado de você mesmo

Tanto a dor, quanto o prazer são aspectos da consciência (i)limitada. Permanecer em ambos, independente de qual seja, traz infelicidade. A pureza do coração independe de qualquer sensação e/ou sentimento e/ou pensamento. Tudo é como é e a manifestação dos diferentes estados de alegria, tristeza, emoção, depressão, etc são apenas estados de alerta para a tomada de consciência. Pura e ilimitada, perceber a realidade tal qual ela é, nos torna unidos e em comunhão com o Todo, sendo portanto parte dEle.


Nisargadatta Maharaj, em I am That (Eu Sou Aquilo), refere-se a eliminação de todo desejo e medo para que possamos criar nosso mundo cheio de paz e harmonia.


N.M: Desejo e medo vêm da visão do mundo como separado de mim mesmo. Assim como você pensa ser, do mesmo modo, você pensa que o mundo seja. Se você imagina-se separado do mundo, o mundo aparecerá como separado de ti e você experimentará desejo e medo. Eu não vejo o mundo como separado de mim, e assim não há nada para eu desejar ou temer.

N.M: Não há caos no mundo, exceto o caos que você cria em sua mente. Ele é autocriado no sentido de que em seu verdadeiro centro há uma ideia de si mesmo como algo diferente e separado das outras coisas. Na realidade você não é nada disso e nem está separado de nada.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

As aparências e a realidade

segundo o Advaita, não há causas..
tudo é como é...

perguntaram para Nisargadatta Maharaj:

P: Tudo o que quero saber é se existem causas para tudo e se as causas podem ser influenciadas e, com isso, afetar os fatos?

M: Para influir nos fatos não é necessário conhecer as causas. Que modo tão indireto de fazer as coisas! Você não é a origem e o fim de cada fato? Controle-o na própria origem.

P: Cada manhã pego o jornal e leio com desânimo que as penas do mundo, a pobreza, o ódio e as guerras continuam sem cessar. Minhas perguntas se referem ao fato da dor, a causa, o remédio. Não me deixe de lado dizendo que é budismo! Não me ponha etiquetas. Sua insistência na não-causalidade elimina toda a esperança do mundo sempre em mutação.

M: Você está confundindo porque acredita que você está no mundo, não que o mundo está em você. Quem veio primeiro, você ou seus pais? Você imagina que nasceu em um certo lugar, em certo dia, que você tem um pai, uma mãe, um corpo, um nome. Este é seu pecado e sua calamidade! Com toda certeza você pode mudar o mundo se a isto se propõe. De todas as maneiras, trabalhe. Quem o detém? Nunca o desencorajei. Com causas ou sem causas, você fez este mundo e você pode mudá-lo.

P: Tudo o que quero é saber como agir em relação às aflições do mundo.

M: Você mesmo quem as criou com seus desejos e temores, agora trata de resolvê-los. Tudo ocorreu por ter esquecido seu próprio ser. Tenho dado realidade à imagem na tela, agora ama as pessoas e sofre por elas, e trata de salvá-las. Pode não ser assim. Tem que começar por você mesmo. Não há outro modo. Trabalhe, certamente, não há mal algum em trabalhar.

Sri Nisargadatta Maharaj
Talks with Nisargadatta

domingo, 20 de julho de 2008

Eu Sou Aquilo


N: Separe-se de tudo o que inquiete sua mente. Renuncie a tudo o que altere sua paz. Se quiser paz, mereça-a.

P: Com certeza, todo mundo merece a paz.
N: Só a merecem aqueles que não a perturbam.

P: De que modo eu perturbo a paz?
N: Sendo escravo de seus desejos e temores.

P: Inclusive quando são justificados?
N
: As reações emocionais nascidas da ignorância ou da inadvertência nunca são justificadas. Busque uma mente clara e um coração limpo. Tudo o que necessita é permanecer tranqüilamente alerta, investigando a natureza real de si mesmo. Este é o único caminho para a paz.

N: Todos vocês estão ensopados porque está chovendo a cântaros. Em meu mundo sempre faz um tempo esplêndido. Não há noite nem dia, nem calor nem frio. Ali não me incomodam as preocupações e os pesares. Minha mente está livre de pensamentos porque não há desejos que me escravizem.

P: Existem dois mundos?
N: Seu mundo é transitório, mutável. Meu mundo é perfeito, imutável. Pode dizer-me o que quiser de seu mundo, escutarei com atenção, até com interesse e, ao mesmo tempo, não esquecerei, por um só momento, que o seu mundo não existe, que você está sonhando.

P : O que diferencia o seu mundo do meu?
N: Meu mundo não tem características pelas quais possa ser identificado. Nada pode ser dito dele. Eu sou meu mundo. Meu mundo sou eu mesmo. É completo e perfeito. Toda impressão é apagada, toda experiência rechaçada. Não necessito nada, nem sequer a mim mesmo, pois esse eu mesmo não pode ser perdido.

P: Nem mesmo Deus?
N: Todas essas idéias e distinções existem em seu mundo; no meu, não há nada parecido. Meu mundo é singular e muito simples.

P: Nada acontece ali?
N: O que acontece em seu mundo, apenas tem validade ali, provocando uma resposta. Em meu mundo não acontece nada.

P: O próprio fato de que você experimenta seu próprio mundo implica em dualidade, inerente a toda experiência.
N: Verbalmente, sim. Mas suas palavras não me alcançam. Meu mundo não é verbal. Em seu mundo, o inominado não tem existência; no meu, as palavras e seus conteúdos não têm nenhuma existência. Em seu mundo nada permanece, no meu nada muda. Meu mundo é real, enquanto o seu é feito de sonhos.

P: Mas nós estamos falando.
N: A conversa está no seu mundo. No meu, há um silêncio eterno. Meu silêncio canta, meu vazio é completo, não me falta nada. Você não pode conhecer meu mundo até que esteja ali.

P: Parece que só você está em seu mundo.
N: Como você pode dizer só ou não só, quando as palavras não são apropriadas? Certamente que estou só, pois eu sou tudo.

P: Você alguma vez vem a nosso mundo?
N: Que é ir e vir para mim? Novamente são palavras. Eu sou. De onde tenho que vir, e aonde tenho que ir?

P: De que me serve o seu mundo?
N: Você deve considerar com maior atenção seu próprio mundo, examine-o criticamente e, repentinamente, um dia você se encontrará no meu.

P: Que ganho com ele?
N: Não ganha nada. Simplesmente abandona o que não é seu e encontra o que nunca perdeu – seu próprio ser.

("Eu Sou Aquilo" - 'Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj' )


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